A Casa Senhorial

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Palácio do Deão

Palácio do Deão
XVIII
Goa
Arquitectura

Junto às margens do rio Kushavati, o edifício localiza-se na vila de Quepém numa zona interior e afastada de Pangim, situada nas chamadas Novas Conquistas.  Fazendo face à igreja de Santa Cruz, a fachada principal volta-se para sul sendo o conjunto envolvido por jardins e uma luxuriante mata de coqueiros. Na zona das traseiras, o terreno apresenta um declive muito acentuado descendo para o rio Kushavati onde se localiza um pequeno ancoradouro. Este rio ao desaguar no Zuary permitia a ligação directa, por barco, até Goa explicando a razão de existência deste palácio numa situação aparentemente tão periférica.

    

O conjunto apresenta uma morfologia arquitectónica complexa com um grande corpo principal rectangular com apenas um piso ligado, lateralmente, por uma  galeria alpendrada, que dá acesso a um edifício para convidados. O corpo principal apresenta uma composição simétrica e tripartida, com alpendre de entrada localizado ao centro da fachada sendo ladeado por dois corpos laterais. Os jardins envolvendo toda a casa dividem-se em várias zonas autonomizadas.  Em frente da fachada principal desenvolve-se um vasto terreiro de entrada delimitado por muretes em laterite com balaústres com portão de acesso  seguido ao fundo  com um segundo portão de acesso á mata e aos jardins. O jardim de aparato fazendo enquadramento com a fachada principal  desenvolve-se em dois patamares separados por escadaria. O edifício lateral reservado  para hóspedes, conforme é referido no Inventário da Casa de 1840, apresenta um corpo rectangular com uma varanda voltada para poente correndo a toda a largura da fachada. Este edifício  recebe cobertura em telhado de quatro águas abrindo para o exterior janelas de peito. Na zona das traseiras virada ao rio o corpo nobre lança, ao centro, uma comprida varanda com telhado de quatro águas suportado por um conjunto de colunas ligadas por peitoril com balaustres que separam este espaço dos jardins.   

 

      

   

A fachada principal apresenta um esquema tripartido com um núcleo central ladeado por dois corpos simétricos marcados por telhados de quatro águas. Cada corpo lateral apresenta um  conjunto de três janelas de sacada alternando com pilastras salientes com capiteis coríntios de expressão popular. Os telhados são rematados por beirado muito saliente com cornija de molduras em curva e contracurva e beiral triplo em telha de canudo. As janelas de sacada e as portas de entrada recebem molduras lisas salientes apresentando as janelas portadas revestida por carepas. Assente por quatro colunas de secção quadrada com capitéis coríntios, o alpendre é encimado por frontão triangular com o tímpano preenchido por baixo relevo em estuque com cartela envolvida por folhagem de enrolamentos de desenho tardo rococó com no interior as cinco quinas das armas reais portuguesas. Ao centro da fachada principal, abrem-se as escadarias de aparato que se dividem num patamar intermédio com ligação ao jardim. Enfatizando o início das escadas, erguem-se dois muretes, colocados simetricamente, sendo rematados lateralmente com plintos com vasos de flores em cerâmica e  florão central. Em frente destes muretes de entrada situam-se, ainda, quatro cadeiras talhadas em laterite onde se colocavam os criados nas recepções e cerimónias litúrgicas.

           

O edifício apresenta uma fachada lateral virada a poente sobre os jardins abrindo-se com  quatro janelas de sacada de linhas rectas com portadas de carepas. A fachada nascente abre-se sobre um pequeno alpendre rectangular que se desdobra em dois patamares. Um primeiro voltado a norte dá acesso, por pequena escada, às antigas cozinhas e  a um caminho que desce para o rio e o ancoradouro. Um segundo patamar dá acesso ao pátio de serviço e à galeria que, por sua vez, faz ligação com a casa dos hóspedes. Segundo o inventário de casa de 1840, esta galeria dava acesso, no final, às latrinas da casa.

   

 

Jardins:

O Palácio de Deão apresenta um notável conjunto de jardins separados, entre si, por muretes e balaustradas em laterite que, envolvendo toda a casa, vão  formando espaços com diferentes graus de privacidade. Correndo ao longo da fachada principal e em articulação com o terreiro de entrada situa-se o jardim de aparato ou da entrada que se divide, por sua vez, em dois patamares acompanhando o declive do terreno. Nas traseiras forma-se outro pequeno jardim murado com uma pequena fonte central em taça com um pombal em alvenaria situado num dos extremos. Em articulação com o jardim de aparato e com o jardim das traseiras, desenvolve-se um terceiro jardim que, voltado a poente, é rematado por um mirante com quatro colunas de fuste oitavado e cobertura em telhado de quatro águas. De cada lado do mirante situam-se duas escadas de ligação à mata marcada  por caminhos ladeados por vasos de flores em laterite  e muretes com típicos bancos conversadeiras.

         

       

Documentação:

Inventário das casas do Reverendo  Deão José Paulo da Costa Pereira d’ Almeida sitas em Quepem e oferecidas para o recreio dos Ex. mos Governadores deste Estado. 8 de Junho de 1840.Biblioteca Pública de Évora, Fundo Cunha Rivara, ARM. V e VI, Pasta nº 15. Doc. 16.

       


Lopes Mendes, Desenho da fachada do Palácio do Deão em Quepém, incluída em Índia Portugueza, Lisboa, Imprensa Nacional, Vol. II, 1886, p.   126. 

Lopes Mendes. Palácio de Quepém. Grafite e lápis de cor. 27 de Dezembro de 1862. In Álbum Paisagens e Costumes da índia Portuguesa. Biblioteca Nacional de Portugal, Cota DA-3-P, fl. 74.

 


Alçado do Palácio do Deão. Atelier Helder Carita. 1992.



MENDES, Lopes, India Portugueza, Lisboa, Imprensa Nacional, Vol. II, 1886, p.126 e 131.  

CARITA, Helder, Palácios de Goa, Lisboa, Ed. Quetzal, 1996, pp.112-115.

SALDANHA, M.J. Gabriel, História de Goa, Vol. II, Parte III, Nova Goa, Ed.Livraria Coelho, 1926, pp.1767177.

HPIP - http://www.hpip.org/Default/pt/Homepage/Obra?a=1554

1779 – Chegada à Índia de Padre José Paulo da Costa Pereira de Almeida.

1787–  Inicio da construção da igreja de Santa Cruz e casa de campo, em Quepém.

1831 – Carta régia confirmando a cedência oficial, em 1829, do palácio de Quepém para local de recreio dos Vice-reis e Governadores do Estado da Índia.

1835- Falecimento de Deão José Paulo Costa Pereia de Almeida, deixando em testamento à Diocese de Goa o seu palácio construído em Quepém.

1862 – Lopes Mendes desenha o palácio na sua visita a Quepém.

2002- Restauro do edifício após acordo do Sé de Goa com Celia e Ruben Vasco da Gama.

Descrição do Palácio por Padre Gabriel de Saldanha no seu livro História de Goa, Vol. II, Parte III, Nova Goa, Ed.Livraria Coelho, 1926, pp.1767177

     


Programa Interior

Piso 0

O programa interior do palácio desenvolve-se num piso único ligeiramente sobreelevado ligado  por um alpendre e uma longa galeria a um edifício para criados situado no lado nascente. O corpo nobre, com uma estrutura rectangular, apresenta um esquema racionalizado definido por um eixo central  perpendicular à fachada principal formado pela sequência da  escadaria de entrada , alpendre, capela e varanda alpendrada. No centro da casa a capela abre portas para o vestíbulo de entrada que servia de espaço de extensão da capela durante as cerimónias religiosas. A partir do vestíbulo de entrada desenvolvem-se, por sua vez, uma sequência de salas ligadas, entre si, por um rigoroso enfiamento de portas (enfilade) que ligam de um extremo ao outro as fachadas laterais. Na sua lógica funcional, a partir do vestíbulo de entrada desenvolve-se à esquerda e para poente a zona de espaços sociais com duas antecâmaras, uma sala de visitas e  um gabinete. Em contraponto com a zona social desenvolve-se, à direita do vestíbulo de entrada, a zona de quartos que termina com um espaço de grandes proporções que servia de sala de jantar, conforme é confirmado no Inventário de 1840.  Abrindo janelas para a facha da principal e para a fachada nascente, este espaço articulava-se com a zona de serviços  localizada nas traseiras da casa. Estruturada de forma semi-independente, esta zona recebe um telhado baixo de uma água, dividindo-se em dois espaços com funções de copa e cozinha.

         

   


Alpendre

No programa distributivo do palácio o grande alpendre de entrada individualiza-se pelas suas vastas proporções. Na sua estrutura arquitectónica este espaço organiza-se por duas pilastras adossadas à fachada principal e quatro grandes colunas com capitéis coríntios ligadas na frente e nos lados por balaustrada em alvenaria.  Ao articular-se por três largas portas com a capela e o vestíbulo de entrada, este espaço assume funções de estar como espaço de extensão à capela nas cerimónias litúrgicas . O forro do tecto em madeira pintada apresenta ainda o tradicional acabamento em saia camisa.

       


Capela e vestíbulo de entrada

Em clara articulação com o alpendre, o vestíbulo de entrada ao desenvolver-se em U, envolve a capela servindo de espaço de extensão à capela que, por sua vez, se abre para este espaço em três portas de carepas, uma frontal e duas laterais. No interior a capela apresenta um retábulo em madeira entalhada pintada e dourada. Ao centro tem um nicho emoldurado por pilastras e grinaldas em talha dourada enquadrando uma imagem de vulto perfeito do Senhor Crucificado. A mesa do altar apresenta forma de sarcófago com aplicações em talha de concheados e cartela central. A banqueta recebe, ainda hoje, seis castiçais em talha dourada que vemos serem referidos no inventário de 1840.

     


Varanda - Mirante

De grandes proporções e originalidade, o interior do palácio apresenta uma varanda mirante desenvolvendo-se perpendicularmente à fachada das traseiras avançando num corpo rectangular pelo meio dos jardins. Nove grossos pilares, divididos por base, fuste e capitel de ordem toscana, ligam-se entre si por peitoril marcado por balaustrada. O espaço é rematado por telhado de quatro águas com armação em madeira com sistema de asnas.

     


Vasary - Casa de jantar

Seguindo uma tradição hindu o interior do palácio integra um longo compartimento localizado no centro da casa que, pelas suas dimensões e localização articula as diferentes zonas da casa. Servindo de sala de refeições este espaço designado por vasry caracteriza-se, ainda, pelas suas proporções estreitas e compridas  que decorriam de uma tradição de comer em linha, isto é, cada um colocado lado a lado.

   


Sala ou Galeria

Ocupando toda a fachada poente, a “sala” constitui, pelas suas proporções e localização priveligiada,  o espaço mais nobilitado da casa abrindo uma janela de sacada sobre o jardim de aparato, quatro janelas sobre o jardim poente e ainda uma janela virada sobre o jardim ads traseiras. No inventário da casa realizado em 1840 a sala de visitas é referida como galeria sugerindo que seria aqui que se expunha a colecção de registos referida no mesmo inventário. A sala como as camaras adjacentes apresentam o forro do tecto com um acabamenro simples em saia e camisa.  

   


Carepas e Decoração aplicada

O palácio manteve todas as  janelas  com as portadas em carepas, facto que sendo uma característica da arquitectura indo-portuguesa até ao século XVIII, se encontra hoje em fase de desaparecimento. Designadas tradicionalmente como adufas, como constatamos no inventário de 1840, esta técnica passa a designar-se nos finais do séc. XIX por carepas, nome derivado do termo concanim de ostra.

 

       


Decoração Móvel

O palácio guarda no seu interior uma valiosa colecção de móveis indo-portugueses, onde se destaca uma mesa indo-portuguesa do séc. XVIII com embutidos em marfim, duas cadeiras de secretaria do séc. XVIII em teca, uma liteira do século XVIII e uma cama de dossel do séc. XIX.

 

                   

Azulejaria
Estuques
Pintura Decorativa
Decoração Diversa
Equipamento Móvel
Equipamento Diverso


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PTCD/EAT-HAT/11229/2009