A Casa Senhorial

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Domingos A. de A. da Silva Meira (1840-1928)

Domingos A. de A. da Silva Meira (1840-1928)
XIX

Domingos António de Azevedo da Silva Meira, Natural da freguesia de Afife, concelho de Viana do Castelo, onde nasceu a 8 de Outubro de 1840, Domingos Meira era filho de Manuel António Meira e de Maria Rosa Domingues da Silva. Aprendeu as primeiras letras junto de um tio padre que o destinara à vida sacerdotal. Após a sua morte frequentou a escola de Viana do Castelo e foi aprendiz do estucador Manuel Afonso Rodrigues Pita, que acompanhou a Lisboa, em 1857, para trabalhar nos estuques decorativos do palácio do Monte-Cristo, à Junqueira (como era conhecido o capitalista Manuel Pinto da Fonseca). Em Lisboa, por instigação do pintor António Manuel da Fonseca, frequentou a Academia de Belas Artes. Aos 20 anos, era já considerado um excelente “escultor-ornamentista”. Após a morte de Rodrigues Pita, substituiu-o na direcção da sua oficina de Lisboa.

A sua formação em Portugal foi completada pelas várias viagens de estudo que fez a França, Inglaterra, Bélgica, Suíça, Itália e à vizinha Espanha, onde visitou os monumentos árabes de Sevilha e de Granada.

Foi um dos mais requisitados estucadores do seu tempo, dirigindo a maioria das obras então realizadas em Lisboa e em muitas localidades do país. Protegido do rei D. Fernando II, que muito apreciava o seu trabalho, visitou os monumentos árabes da vizinha Espanha, de onde trouxe a inspiração para alguns dos estuques que realizou. D. Fernando encomendou‑lhe a decoração de várias salas dos palácios da Pena e das Necessidades. Em sinal de apreço por estas obras, foi-lhe concedida a 27 de Julho de 1895 a mercê de cavaleiro da Ordem de Cristo.

Na última década do século XIX, a oficina de Domingos Meira, com sede na rua do Salitre, ao Rato, nº 334, em Lisboa, ocupava-se de “toda a obra de Estuques e Pinturas”, como era referido no papel timbrado de várias cartas enviadas em 1895 ao conde de Burnay, um dos grandes capitalistas de então, a propósito das obras realizadas num dos seus palácios, na rua das Portas de Santo Antão - o palácio que pertencera aos condes de Povolide, hoje sede do Ateneu Comercial. Tendo em atenção que um grande número de obras realizadas nesta época associavam estuques e pintura decorativa, compreende-se o alcance e a importância desta oficina.

Em 1897 era gerente da firma “Meira & Meira”, com escritório na Rua Rosa Araújo, nº 25 e proprietário de uma “fábrica de gesso a vapor”, situada na “Quinta do Bahute”, nºs 4 a 7, em frente ao Cemitério dos Prazeres, equipada com dois fornos. Além de “Gesso de estuque”, a firma fornecia “cré, (...) pó de pedra, areia do Rio Secco, cimento de todas as qualidades [e] Ornatos para tectos e paredes, etc.”. Era pois um negócio completo: na sua oficina ocupava-se de obras de estuques e de pintura decorativa, em que utilizava o gesso que produzia na sua fábrica, a cré, o pó de pedra e a areia e ainda os ornatos pré-fabricados que comercializava através da firma “Meira & Meira”.

A sua oficina foi responsável pelas seguintes obras de estuque, em Lisboa: a sala do Conselho de Estado, no Ministério do Interior; os palácios dos duques de Loulé, do marquês da Praia e Monforte, do marquês do Faial, do marquês da Foz e do conde da Folgosa; os palacetes Lima Mayer e Sotto-Mayor; a galeria do palácio do conselheiro Morais de Carvalho; o salão nobre e a escadaria da Escola Médica de Lisboa; o Museu de Artilharia, os salões do Turf‑Club, ao Chiado; os palácios da condessa do Porto Covo, do Marquês de Pombal, da viscondessa de Reboredo, dos duques de Palmela, dos condes de S. Marçal, dos condes de Nova Goa, dos condes de Cabral, de Daupiàs, da Boa‑Vista, de Geraz do Lima e do Paço do Lumiar; os palácios do visconde de Porto Salvo, de Monserrate e de Monsanto; os palácios de Alfredo Guedes, Manuel de Castro Guimarães, Francisco Simões Margiochi, Carlos Eugénio de Almeida, José e Francisco Ribeiro da Cunha, Eduardo Coelho e Alfredo Ribeiro. No Estoril realizou os estuques do chalet da rainha D. Maria Pia; em Évora, o teatro Garcia de Resende e o palácio Barahona; na Figueira da Foz, o palácio Sotto-Mayor; em Beja, o edifício da Câmara Municipal; o palácio do marquês de Alvito, em Alvito; em Estói, o palácio do visconde de Estói; no Porto, o Grande Hotel e o palacete Braguinha, a S. Lázaro.

Domingos Meira esteve presente em várias exposições nacionais e internacionais - Paris (1900), Chicago (1904) e Rio de Janeiro (1908) - tendo recebido prémios por obras aí mostradas, nomeadamente em mármores artificiais. Desenvolveu a técnica da escaiola, utilizando um gesso finíssimo, fabricado em Inglaterra, em cuja composição entrava a “pedra hume”, que dava ao mármore artificial o frio da pedra natural.

Entre os estucadores naturais de Afife que com ele trabalharam, contam‑se Francisco Enes Meira, seu primo, António Afonso da Silva e Domingos Ruas.

Faleceu em Afife a 24 de Junho de 1928 e está sepultado no cemitério da povoação.

    (Isabel Mendonça)

Bibliografia

FERNANDES, Felipe – “Elogio dos famosos estucadores de Viana”. Cadernos Vianenses, Viana do Castelo, Câmara Municipal de Viana do Castelo, tomo VI, 1981, pp. 12-26.

MEIRA, Avelino Ramos - Afife (Síntese Monográfica). Afife, Junta de Freguesia de Afife, 1945.

MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho. Estuques Decorativos em Igrejas de Lisboa, Lisboa, Patriarcado de Lisboa, 2009. 

MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho - “O estuque ornamental e o apelo do exótico em interiores portugueses: Domingos Meira e as gravuras de Owen Jones”,  IV encontro Luso-Brasileiro de Museus Casa, Fundação de Casa de Rui Barbosa, 13, 14 e15 de Agosto de 2012, Rio de Janeiro, Brasil, no prelo.

MENDONÇA, João de – “Domingos António da Silva Meira”. Diário Illustrado, Lisboa, 11 de Dezembro de 1894, p. 1.

PEREIRA, Esteves, RODRIGUES, Guilherme - Diccionario Historico, Chorographico, Bibliographico, Biographico, Bibliographico, Heraldico, Numismatico e Artistico. Lisboa, João Romano Torres, vol. VI, 1912, pp. 931-2. 

PUGA, Casimiro – Gerações de Afifenses. Os Meiras, Viana do Castelo, ed. do autor, 2013.

 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009