A Casa Senhorial

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Paço real da Ribeira, pormenor e vista de Lisboa

Paço real da Ribeira, pormenor e vista de Lisboa
XVl - XVIl
Portugal
   

Crónica do rei D. Afonso Henriques de Duarte galvão. Séc. XVI

Pergaminho, manuscrito e iluminado. Camara Municipal de Cascais/Museu Biblioteca Condes de Castro Guimarães. MCCG. 14


Obra emblemática da Lisboa Manuelina, o Paço da Ribeira constitui, ao nível da arquitectura doméstica, a realização mais original deste reinado, marcando durante séculos a imagem da capital dos Descobrimentos. A morfologia do paço manuelino ficou registada em várias gravuras e iluminuras que nos permitem, com apoio de documentação da época, uma avaliação geral das suas opções estéticas e arquitectónicas. Dada a presença do mestre Diogo de Arruda como responsável das complexas obras de construção de um baluarte situado junto às águas do Tejo, a solução geral do palácio é atribuída a este mestre, que na altura também estava encarregado de várias outras obras promovidas pela Casa Real.

Na sua estrutura programática, o corpo habitacional do Paço recolhia-se em torno de dois grandes pátios, circundados no seu interior por varandas, e prolongava-se sobre a Praça da Ribeira através de uma vasta galeria com dois pisos, em varanda de arcos sobre colunas, que terminava por um torreão junto às margens do Tejo. Na sua original morfologia arquitectónica, conformando toda uma ala da praça da Ribeira, a varanda ou varandas que terminavam no torreão sobranceiro ao Tejo constituíam, sem dúvida, o aspecto mais emblemático do Paço.  

Entre o corpo habitacional e a galeria-varanda salientava-se ainda um corpo relativamente autónomo constituído pela sala grande, como é referida na época, e que, nas suas vastas proporções, funcionava como espaço polifuncional de recepções, festas e cerimónias. Desta sala para o interior desenvolviam-se, de forma autónoma, os apartamentos do rei e da rainha, que se distribuíam pelos dois pátios interiores.

Na sua relação directa com o rio, o torreão e a galeria superior funcionavam como percursos de aproximação à sala grande, mais tarde chamada dos Tudescos, conferindo às entradas régias e cerimónias de recepção um sentido cenográfico e festivo. A meio desta varanda erguia-se ainda um corpo torreado, com uma escada em caracol que fazia a ligação entre os dois níveis da varanda. Com dois andares, esta torrezinha era rematada por um coruchéu e estabelecia-se como um elemento de animação rítmica no extenso corpo da galeria. Elemento peculiar, o Paço integrava, ao nível do piso térreo, um complexo conjunto de lojas e departamentos da Casa Real, ligados com as actividades náuticas e comércio marítimo, genericamente referido como os Almazens. Era aqui que se elaboravam os instrumentos náuticos e as cartas de marear, se guardavam armas e canhões e os pilotos recebiam aulas dos cosmógrafos.

Ao longo da varanda, mas do lado poente, em oposição à praça, o paço dispunha de um jardim murado. Pela iconografia da época este jardim era dividido por ruas, sendo decorado com as tradicionais laranjeiras. Pela documentação, estas ruas eram ladrilhadas e o jardim era decorado com bancos e alegretes forrados com azulejos. Se, na sua estrutura fechada por altos muros e decorada de laranjeiras, este jardim prolonga uma tradição mudéjar que se desenvolve no sul do País, nas suas mais largas proporções e no azulejamento de bancos e alegretes transparece uma tendência estética manuelina para um refinamento decorativo, aqui expresso pelo azulejamento do seu espaço interior, de que não encontramos referência semelhante em jardins do século XV.


Bibliografia:

SENOS, Nuno – O Paço da Ribeira 1501-1581, Lisboa, Editorial Notícias, 2002.

CARITA, Helder, A Casa Senhorial em Portugal, Modelos, Tipologias, Programas Interiores e Equipamento, Lisboa, Leya, 2015. p. 65 - 67



 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009