A Casa Senhorial

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Planta do Palácio dos Condes da Castanheira

Planta do Palácio dos Condes da Castanheira
XVl-XVIl
Portugal
Castanheira2     Castanheira1     Castanheira3

Planta do Palácio dos Condes da Castanheira, na calçada da Glória, em Lisboa

João Nunes Tinoco «Planta das Cazas do Sr Conde D. António de Ataíde que tem na Calçada de N Sra da Gloria junto aos Padres da Companhia (…) João Nunes Tinoco». Legenda dos compartimentos do andar nobre referidos na planta: « Pateo – Antecamara – Camareta – Saleta – Salla - Segunda antecâmara – Oratório - Casa das Mulheres - Prª Guarda roupa - Segunda Guarda roupa – Câmara - Casa de Fatos - Sala dos Livros – Varanda». Século XVII (2º quartel). Tinta da china e aguada a cores sobre papel. Biblioteca da Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa.

 

Nota: Constitui esta planta um documento essencial para a história dos interiores em Portugal dado tratar-se de uma rara planta do século XVII, a cujo significado é acrescido o facto da planta apresentar uma legenda com a designação das diferentes funções de cada compartimento do piso nobre. 

A planta é assinada pelo Arq. João Nunes Tinoco (1619-1689), importante arquitecto da época com uma vasta obra documentada, tendo assumido, em 1641, o cargo de arquitecto das obras de São Vicente de Fora, e o cargo de arquitecto da Casa das Rainhas, instituído em 1665 por D. Luísa de Gusmão. Na legenda é referido o proprietário do palácio, D. António de Atayde, 5º conde da Castanheira que faleceu em 1647 com mais de oitenta anos. Não incluindo a planta uma data será de admitir que a elaboração do projecto se situe entre os inícios da carreira de João Nunes Tinoco, na década de 30, e os últimos anos de vida activa de D. António. No seu significado a planta parece corresponder a obras de melhoramento do palácio, talvez relacionadas com o sistema de canalização de águas que aparece em ponteado a vermelho ligando a casa aos jardins.

D. António de Atayde ocupou o alto cargo de General das Armadas de Portugal, tendo ficado conhecido como grande bibliófilo e coleccionador. Durante a sua vida, D. António de Atayde organiza uma fabulosa biblioteca com um número considerável de códices e documentos diversos relativos a cartografia, arte de navegar e diários da Carreira da Índia, cujo percurso foi estudado por historiadores como Henrique Quirino da Fonseca[i], Humberto Leitão[ii]ou Charles Boxer[iii]. A este facto liga-se, sem dúvida, a presença de um compartimento do palácio designado como “Sala dos Livros”.

A partir da legenda da planta podemos observar que, no seu conjunto, o programa interior do andar nobre se organiza por sequência de espaços distribuídos numa lógica de hierarquias que do acesso das escadarias principais se vai desenvolvendo a partir de espaços mais públicos, para espaços mais privados. 

A sequência de salas é dada pelos espaços de  “saleta, camareta, sala e antecâmara”, sendo os espaços mais privados e afastados do núcleo das escadas nobres; “a câmara, oratório, varanda, guarda- roupa e sala de livros”.

Face aos programas do séc. XVI, a «saleta» e a «camareta» surgem nesta planta  como uma clara novidade inscrevendo-se como pequenos espaços de espera que antecedem respectivamente a «sala» - entendida como espaço formal de recepção, usado apenas para momentos solenes - e a «antecâmara» como sala de visitas mais comum.  Intimamente articuladas com o núcleo de escadas tanto a  saleta como a camareta resultam de uma fragmentação de funções da sala que progressivamente perde valores de polifuncionalidade e de núcleo distributivo nas circulações do interior da casa.

A uma tendência para uma maior racionalização dos espaços está ligada, igualmente, o aparecimento, nesta planta, de duas antecâmaras, correspondendo a espaços diferenciados para o elemento masculino e feminino da casa. Se este facto não é inédito para o séc. XVI ele parece circunscrever-se aos paços reais e há existência de aposentos separados para o rei e a rainha. A divulgação destas antecâmaras, embora circunscritos à alta nobreza, marca uma tendência para demarcar espaços individualizados na casa para o elemento feminino. De forma idêntica o inventário do palácio dos condes de Vila Franca dá-nos conta de duas antecâmaras individualizadas, sendo a da condessa descrita com, “cortinas de tafetá nas portas, com seu bufete, com seu estrado coberto por uma alcatifa da Índia, com seu adereço de doze almofadas, o seu docel e as suas duas cadeiras”[iv].

 Entre a antecâmara e a câmara, a planta em estudo apresenta, ainda, um compartimento referido na legenda como «Casa das Mulheres». Da designação e relação na estrutura do espaço estamos aqui em presença daquilo que mais tarde se chamará «sala de estrado», um espaço reservado ao dia-a-dia das mulheres que retira à câmara de dormir antigas funções de estar quotidiano. 

A planta do palácio dos condes da Castanheira assinala, a existência de dois compartimentos com funções de guarda-roupa, respectivamente «primeira guarda-roupa» e «segunda guarda-roupa», e um terceiro designado especificamente como «casa dos fatos». Esta separação parece ligada à importância que assume a guarda-roupa durante o séc. XVI onde, às tradicionais funções de arrumos, este compartimento acumula novas funções de audiência privada. Como o nome sugere a guarda-roupa ocupava ao longo da Idade Média importantes funções de apoio à vida doméstica da casa. Situado na sequência da câmara a guarda-roupa também era designado como transcâmara, assinalando a sua localização por traz ou além da câmara. Como a «sala», a guarda-roupa ocupava funções variadas que se estendiam do armazenamento de roupa e adereços, objectos de apoio à copa acumulando, ainda, outras funções de dormir. Em clara oposição, a “casa de fatos” aparece aqui, por outro lado, numa zona mais privada da casa, e posterior à câmara, como apoio ao quarto de dormir, assumindo as funções tradicionais de guarda-roupa.

A planta apresenta ainda uma rara representação de um jardim do século XVII, marcado por uma estrutura em vários terraços. Já na posse dos Marqueses de Castelo Melhor, os jardins deste palácio foram descritos por Lourenzo Magalotti no Diário da Viagem de Cosme III de Medici a Espanha e Portugal: “com escadas decoradas de majólicas… várias fontes com estátuas, entre as quais uma feita na Holanda e oferecida pelo rei D. João, uma gruta de de conchas e madrepérolas, bastante interessante”[v].



[i] FONSECA, Henrique Quirino da, (ed.), Diários de Navegação da Carreira da Índia, nos anos de 1595, 1596,  1597, 1600 e 1603, Lisboa, Academia das Ciências, 1938.

[ii] LEITÃO, Humberto,  Diários de navegação coligidos por D. António de Ataíde no século XVII, 3 vols., Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1957-1958.

[iii] BOXER, C. R. “The naval and colonial papers of Dom António de Ataíde”, Harvard Library Bulletin, vol. V, n. 1, Cambridge (Mass.), 1951, pp. 24-50; e “Um roteirista desconhecido do século XVII. D. António de Ataíde, capitão geral da Armada de Portugal”, Arquivo Histórico da Marinha, vol. I, nº 1, 1934, pp. 189-200.

[iv] FREIRE, Anselmo Braancamp – O Conde de Vila franca e a Inquisição, Lisboa, Imprensa Nacional, 1899, p. 46

[v] CORSINI, Fillipe, “Viagem de Cosme III de Medici a Portugal e Espanha”, in Revista Municipal, Lisboa, nº11-12, 1942, p.65

 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009