A Casa Senhorial

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Camarim

CAMARIM, [Do italiano Camerino]. Segundo Bluteau, no seu Vocabulário, este espaço definia-se, como: “um aposento em que se tem as peças mais raras e mais preciosasi.

Enquadrado numa tradição dos gabinetes de preciosidades dos príncipes do Renascimento, assinalamos a presença de camarins nos interiores portugueses a partir do século XVII, sobretudo num quadro da alta aristocracia.

Nesta tipologia espacial de gabinete de preciosidades podemos enquadrar a famosa “casa das porcelanas” do Palácio de Santos referida num inventário do palácio, dos inícios do séc. XVIII (1704), como «camarim». “trez portas de cortinas que fazem seis do mesmo damasco e franjas que são do camarim…”ii. Numa linha de caracterização deste espaço, um inventário do Palácio do Conde de Vila Franca dá-nos um interessante pormenor ao referir a existência de dois camarins, um primeiro: “ tinha uns retratos de pessoas de sua linhagem e em outro camarim os retratos dos imperadores”iii. Aspecto particularmente importante e inaugural, este espaço recebe aqui uma decoração permanente afastando-se da flexibilidade dos espaços da sala e antecamaras, adequada a montagem de armações, dóceis e estrados em momentos de grandes festas e recepções.

Ao longo da segunda metade do século XVIII as referências do camarim começam a rarear, sendo, de uma certa maneira, este compartimento substituído pela divulgação progressiva dos espaços de gabinete e livraria.


Referências documentais

1651 - “No camarim tinha uns retratos de pessoas de sua linhagem e em outro camarim os retratos dos imperadores…” Inventário do Palácio do Conde de Vila Franca, em Lisboa.iv.

1704“Trez portas de Cortinas que fazem seis do mesmo Damasco e franjas que são do Camarim e trez sanefas de borcado avaliado tudo em noventa mil reiz” Inventário do Palácio de Santos”v

1734 - “sala vaga, hum gavinete com uma janela, outro gavinete, com duas janelas, casa grandes e principais com duas janelas, outra sala com cinco janelas), outra casa a facia da rua, com duas janelas, Outra casa e tres portais, Saleta de dona para a sala principal, Outra sala grande quatro janelas junto a esta caza de oratório, Outra salla com cinco janelas, Hum camarim com sinco janellas, Outra caza com duas janellas” Certidão de avaliação de obras realizadas no Palácio de Xabregas.vi

1766-1767 Camarim Huma imagem de Christo Crucificado de marfim de dous palmos com sua crux de páo santo, e Calvario Huma imagem de Nossa Senhora da Conceição de marfim

Hum corpo de charam por forma de bofete, com filetes amarelos

Huma cadeira poltrona forrada de azul com almofada Huma papeleira de madeira de Brasil velha Sete paineis em papel da China dous deles encarnados mais estreitos

Hum pano de cetim com carateres chinos e huma guarnissão por modo de galão

Sinco laminas ovadas em papel com seus vidros,

Hum frasco para chá de cobre esmaltado

Quatro quadros de papel ao humano com seus vidros por fora e molduras pintadas - Hum banquinho pintado de preto - Hum velador de páo santo e pé trocido - Duas cantoneiras com seus repartimentos cada huma toscas - Huma vara de familiar acharoada - Tres portas de cortinas de sedinha da India lavrada

Outo figuras de jesso - Huma estante dividida ao meio com duas gavetas acharoadas de azul e ouro com sua simalha por sima - Huma estante pequena tosca com varios repartimentos” Inventário de partilhas do Palácio Mitelo, Campo de Santa Anavii

Hélder Carita (2014)


i BLUTEAU, Rafael, Vocabulário Portuguez e Latino…, Coimbra, Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712, vol.IV, p.C-71

ii SOUSA, Maria Teresa de Andrade e – Inventário dos Bens do Conde de Vila Nova, D. Luís de Lencastre, cit. supra, p.40

iii FREIRE, Anselmo Braancamp – O Conde de Vila Franca e a Inquisição, Lisboa, Imprensa Nacional, 1899, p. 46

iv FREIRE, Anselmo Braancamp – O Conde de Vila Franca e a Inquisição, cit. supra, p. 46

v SOUSA, Maria Teresa Andrade, Inventário do Conde de Vila Nova Dom Luiz de Lamcastro, cit. supra, p.40

vi ARRUDA, Luísa, “O Palácio de Xabregas, do Legado de Tristão da Cunha às Grandes Obras do Século XVIII. In Claro Escuro, nº 6/7, 1991, Transc. do A.M. O, Núcleo Cunhas e Mendonças, Doc. 311.

(Sertidam de avaliação de obras de 1734)

vii TT, Orfanológicos, Letra A, Maço 121, Nº 1, Cx. 206 . Inventário dos bens que ficaram por morte do Desembargador Alexandre Metelo de Sousa e Meneses. 1766-1767


 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009