A Casa Senhorial

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Guarda-roupa

GUARDA-ROUPA. De tradição medieval, Bluteau fornece três significados para este termo; começando por: “armário grande portátil onde se metem os vestidos”, a seguir a casa das carneiras em que os fidalgos tomam visitas, por ser esta casa como antecamara” e por fim; “o guarda que guarda os vestidos de hu Rey, Principe &”. É significativo que Bluteau ainda refira o “guarda roupa” com três sentidos, como móvel; “armário grande portatil em que se metem os vestidos”, como um cargo oficial “aquelle que guarda os vestidos de hum Rey de hu Príncipe &” e “a casa das carneiras, em que os fidalgos tomam visitas por ser esta casa como antecâmara”i

Como espaço autonomizado no interior da casa, o “guarda-roupa” ocupava ao longo da Idade Média importantes funções de apoio à vida doméstica. Situado na sequência da câmara o guarda-roupa também era designado como transcâmara, assinalando a sua localização na sequência da câmara de dormir. Como a «sala», o guarda-roupa ocupava funções variadas que se estendiam do armazenamento de roupa e adereços, objectos de apoio à copa acumulando, ainda, outras funções de dormir.

Na sua localização no interior do programa distributivo da casa, o Regimento da Casa de D. Afonso V, faz igualmente menção, à sequência da salla, antecâmara, câmara de dormir e guarda-roupaii. Quanto ás funções do guarda-roupa, um documento assinado pelo rei D. Duarte, sobre o Paço de Sintra, refere: “que andem em vosso thesouro ou guarda roupa copas, e taças, e gomis espadas garnydas e esporas douradas e panos de syrguo e de lan finos e somenos e freos e selas e garnymentos de bryda e ginetes para dadivas”iii.

Além das funções de arrumo era aqui que dormiam pagens e camareiras como menciona frequentemente a documentação. Na Crónica de D. Fernando, de Fernão Lopes, o autor escreve numa passagem: “e o iffante preguntou por dona Maria, a quall jazia em sua câmara cerrada (…) e em outra câmara trás aquella jazia huua ama e camareiras com huu seu filho”iv.

No século XVI o Regimento dos Officiais da Caza do Duque D. Teodósio I. duque de Bragança entre 1532-1563, é particularmente elucidativo do carácter polifuncional do chamado guarda roupa. Segundo este regimento “…todos, ( os moços que servião na guarda roupa ) tinhão obrigação de dormir na guarda roupa e servir nela em tudo o que era necessário de noite dormiam e de dia guardavam” 191. Neste Regimentoo confirmamos ainda que

A guarda-roupa parece, no entanto, adquirir novas funções durante o séc. XVI. Nas memórias de Pêro de Alcáçova Carneiro o autor refere que D. João III recebeu, na guarda-roupa, Rui Gomes da Silva que vinha, em representação do príncipe castelhano D. Filipev. Igualmente referido por Pêro de Alcáçova Carneiro, D. João III recebe D. Fernando de Roxas, irmão do marquês de Denia, enviado do Imperador, no seu guarda-roupa, acompanhado “com as pessoas de título e do Conselho”.

Na descrição das festas realizadas, em 1537, na Vila Viçosa, pelo casamento do Infante Dom Duarte com Dona Isabel, irmã do duque Dom Teodósio vi, dá-nos uma visualização da distribuição do interior onde no guarda-roupa do rei é colocado um docel para audiênciasvii.

Ao longo da segunda metade do XVIII, o guarda-roupa, como espaço autonomizado do interior da casa, vai perdendo importância com a progressiva divulgação do uso da cómoda. O Dicionário de Morais da Silva de 1789, assinala para guarda roupa, os significados de: ”pessoa que tem à sua conta a roupa de outrem”, e, “ armário onde se guarda roupa”viii, omitindo a referência a esta ência da casa, facto que nos confirma uma perca de importância do guarda roupa nos esquemas distributivos da casa nobre.



1438 - “que andem em vosso thesouro ou guarda rroupa copas, e taças, e gomis espadas garnydas e esporas douradas e panos de syrguo e de lan finos e somenos e freos e selas e garnymentos de bryda e ginetes para dadivas” Descrição do Paço de Sintra no reinado de D. Duarteix.

1440-50 - “e o iffante preguntou por dona Maria, a quall jazia em sua câmara cerrada (…) e em outra câmara trás aquella jazia huua ama e camareiras com huu seu filho” Crónica de D. Fernando, de Fernão Lopesx.

1537 - “estava posta a guarda roupa de EIRei mui alta e coberta toda ate o chaõ de hum pano de cetim avelutado emcranado todo, bandado de borcado; em sima della estaua tambem armado outro docel, de ueludo uerde nouo; tambem com cordoes de seda uerde e com sanefas de borcado e toda a caza armada de tepassaria do teor da salla com muitas arcas emcoiradas ao longo das paredes, cubertas com alambeis nouos” Descrição de festas de casamento no Palácio Ducal de Vila Viçosaxi

1532-1563 - “…todos, ( os moços que servião na guarda roupa ) tinhão obrigação de dormir na guarda roupa e servir nela em tudo o que era necessário de noite dormiam e de dia guardavam”Regimento dos Officiais da Caza do Duque D. Teodósio I. duque de Bragançaxii

XVI (finais do séc.) - Varanda- Salla -Antecâmara – Câmara -Guarda-roupa - Casa do guarda-roupa – Tribuna- Casas de famliares – Dedespacho -Sciptorium Banho”. Legenda da Planta do Palácio dos Duques de Bragança em Lisboa.xiii

Hélder Carita (2014)


  i BLUTEAU, Rafael, Vocabulário Portuguez e Latino…, Coimbra, Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712, vol.IV, p.G.149.

ii ORDENAÇÕES Afonsinas , Livº I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Título LVIII, 1984, pp. 337-340.

iii SILVA, José Custódio Viera da, Paços Medievais Portugueses, cit. supra, p.210

iv LOPES, Fernão – Crónica de D. Fernando, Lisboa, Ed. Livraria Civilização, 1992, p. 176

v Andrada, Ernesto de Campos (ed.) Relações de Pêro de Alcáçova Carneiro, conde da Idanha, do tempo que Ele e Seu Pai, António Carneiro, Serviram de Secretários ( 1515-1568), Lisboa, Imprensa Nacional, 1937, p.422

vi Festas e apercebimentos que fez em villa Vicoza o Duque Dom Theodosio E os casamentos do Infante Dom Duarte e da Srª Infante Dona Isabel sua irmam no mes de abril do anno de 1537, documento transcrito por José Teixeira – O Paço Ducal de Vila Viçosa, Vila Viçosa, FCB., 1983, pp.114-119

vii Idem, ibidem, p.116

viii MORAES SILVA, António, Diccionário de Língua Portugueza…, Lisboa, Off. Simão Ferreira, Tomo I, 1789, Vol. I, p.674

ix SILVA, José Custódio Vieira da, Op. Cit., p.210

x LOPES, Fernão – Crónica de D. Fernando, Lisboa, Ed. Livraria Civilização, 1992, p. 176

xi Festas e apercebimentos que fez em villa Vicoza o Duque Dom Theodosio E os casamentos do Infante Dom Duarte e da Srª Infante Dona Isabel sua irmam no mes de abril do anno de 1537, documento transcrito por José Teixeira – O Paço Ducal de Vila Viçosa, Vila Viçosa, FCB., 1983, pp.114-119

 Idem, ibidem, p.116.

xii SOUSA, António Caetano de, Provas da História Geneológica da Casa Real, Lisboa, Officina Sylviana, Vol. IV, 1745, p.191

xiii Biblioteca Nacional de Portugal – Iconografia - D. 624.


 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009