A Casa Senhorial

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Antecâmera

ANTECÂMARA – Bluteau, no seu Vocabulário, define antecâmara como “a casa anterior à camara onde se dorme”.i A palavra parece surgir no século XV, indiciando uma maior complexidade da estrutura distributiva dos paços e casas nobres deste período. Como a palavra sugere este compartimento, designado por antecâmara, surge pelo desdobramento da câmara que nos programas distributivos da casa nobre passa a articular-se com um espaço anterior, a antecâmara, e um espaço subsequente a trascamara ou guarda-roupa. Encontramos a alusão a esta sucessão de espaços no Regimento da Casa de D. Afonso V, onde o texto faz menção num paço real à sequência da “salla, antecâmara, câmara de dormir e guarda-roupaii. No seu Leal Concelheiro, o rei D. Duarte I, fornece para o século XV uma interessante definição das funções da antecâmara assinalando: câmara de paramento, ou antecâmara, em que custumam estar seus moradores e alguus outros notáveis do reyno”iii. Diferente da salla, vocacionada para momentos festivos ou mais solenes a antecâmara definia-se, sobretudo, como espaço de estar.

No século XVII a antecâmara perde o seu sentido tardo medieval de compartimento anterior à câmara, assumindo outras lógicas nos programas interiores.

Na planta do Palácio dos Condes da Castanheira, surgem duas antecâmaras, localizadas numa zona próxima do acesso ao piso nobre e situadas antes da “sala grande”. A divulgação destas antecâmaras, embora circunscritos à alta nobreza, marca uma tendência para demarcar espaços individualizados na casa para o elemento feminino e masculino. O Inventário do Palácio dos Condes de Vila Franca dá-nos conta de duas antecâmaras individualizadas, sendo a da condessa descrita com; “cortinas de tafetá nas portas, com seu bufete, com seu estrado coberto por uma alcatifa da Índia, com seu adereço de doze almofadas, o seu docel e as suas duas cadeiras”iv. Como variante a antecâmara assume o lugar de espaço de transição para a sala de visitas, mantendo um sentido de espaço de estar, embora independente da sua antiga relação com a câmara.

Referências documentais


1438 - “Segunda, câmara de paramento, ou antecâmara, em que custumam estar seus moradores e alguus outros notáveis do reyno” Descrição de um interior de um paço realizada por D. Duarte I,v.

1537“…E logo adiante estaua sua antecamara armada toda de tepasaria mui singular e noua de historias antigas, e a huã parte da caza sobre hum alto estrado bem cuberto de alcatifas nouas, estaua tambem armado com cordoes de seda outro docel de borcado raso, com sanefas de carmesim e no estrado seis almofadas de ueludo amarelo, e no chaõ a ilharga delle huã alcatifinha doiro noua em que se asenta sua camareira mor, e todo o mais da caza ao longo das paredes bem alcatifado, pera se assentarem as Damas e Donas fidalgas”. Descrição de cerimónias de casamento no Palácio Ducal de Vila Viçosavi.

1734 “…sem por isso impedir que da sala se entre nobremente para as antecamaras, e guardaroupas” Carta de João Gomes da Silva a seu filho Fernão Teles da Silva vii.

1794 - “Plano Nobre - Sala de espera, antecâmara, sala de visitas, gabinete, toucador, oratório ou tribuna para a ermida, caza de jantar, câmara, guarda roupa com chaminé, caza de lavor, despejos”. Programa interior de uma casa de nobre, descrito por Carvalho Negreiros in Jornadas do Tejo viii.

Hélder Carita ( 2014)

i BLUTEAU, Rsafael, Vocabulário Portuguez e Latino…, Coimbra, Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712, Vol. I, p.296

ii ORDENAÇÕES Afonsinas , Livº I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Título LVIII, 1984, pp. 337-340.

iii D. DUARTE - Leal Conselheiro, (ed. crítica e anotada por J. M. Piel), Lisboa, Lvrª Bertrand, 1942, p.303, (sublinhado nosso).

iv FREIRE, Anselmo Braancamp – O Conde de Vila franca e a Inquisição, Lisboa, Imprensa Nacional, 1899, p. 46

v D. DUARTE - Leal Conselheiro, (ed. crítica e anotada por J. M. Piel), Lisboa, Lvrª Bertrand, 1942, p.303, (sublinhado nosso).

vi BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL, Memórias da Caza de Bragança, Cód. 1544 (páginas inumeradas)

Festas e apercebimentos que fes em Villa Vicoza o Duque de Bargança Dom Theodosio. E os casamentos do Infante Dom Duarte e da srª Infante Dona Izabel sua irmam. No mes de Abril do anno de 1537.

vii CALDAS, João Vieira; COUTINHO, Maria João Pereira. “O Nome e a Função: Terminologia e Uso dos Compartimentos na Casa Nobre Urbana da Primeira Metade do Século XVIII. In A Casa Senhorial em Lisboa e o Rio de Janeiro, Anatomia dos Interiores, Lisboa, IHA/UNL-EBA-UFRJ, 2014, p.162.

viii IBLIOTECA DA AJUDA, Addittamento ao Livro Intitulado Jornada pelo Tejo… – Ob. Cit, Tomo IV, fol. 76.





 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009