A Casa Senhorial

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Armação/ paramento de cama

ARMAÇÃO/ PARAMENTO DE CAMA – As armações/ paramentos de cama ou de leito, como são sobretudo nomeados nos inventários de bens patrimoniais até ao século XVIII, designam o conjunto de panejamentos que ornamentam e cobrem as estruturas fixas ou portáteis dos leitos. O seu surgimento deriva da evolução dos móveis de repouso nocturno no decurso do século XV, os quais eram então desprovidos de qualidade artística e, por isso, enriquecidos pela componente têxtil. Suspensos do tecto, da parede ou da estrutura de madeira dos leitos de colunas, estes agregados visavam criar, com base no perímetro definido pelo respectivo móvel, uma área envolvente e completamente isolada, sintomaticamente apelidada na Toscana de “câmara”1. As camas ou cortinas - expressões com que estes conjuntos também surgem enunciados -, assumem crescente protagonismo na centúria de Quinhentos, e tornam-se, mesmo, nos mais dispendiosos e impressionantes haveres de aparato no contexto doméstico privado2.

Na sua versão mais complexa e remota, as armações incluem cabeceira, costaneiras, corrediças, sanefas e céu, por norma plano, sendo ainda passíveis de articular com dosséis ou pavilhões, de morfologia quadrangular ou circular/cónica, respectivamente. Nos inventários do século XVII e XVIII estes termos desaparecem cedendo lugar a outros como cortinas, sobreceo e rodapé. As armações ou paramentos podiam ser talhadas nos mais variados tipos de suporte em tapeçaria e tecidos, como o tafetá, cetim, damasco e veludo, por sua vez, bordados ou pintados, em conformidade com um uso sazonal ou excepcional sendo que o uso dos mesmos tecidos, nas mesmas cores, se alargava tanto à confecção dos cobertores que cobriam os colchões e a remanescente roupa da cama como de outras estruturas de apoio, utilizadas nos ambientes privados como as cadeiras e as mesas3. Para a riqueza das armações concorria ainda a aplicação de vistosas passamanarias, como franjas e borlas de ouro e seda, a debruar as orlas dos panejamentos.

Referências documentais

1563Jtem Hũas cortinas de cetim auelutado amarelo a saber o Ceo Com alperauases e framias amarelas Com sua Costaneira E cabeceira a costaneira tem quatro panos de tres Couados cada pano E a Cabeseira de tres panos E meio de dous couados E quarta Cada pano foi avaliada Com o Cobertor de ueludo E com as tres corredices de damasquo abaixo na adicam Em trinta E seis mil reis”4.

1642 - “Huma armação de leito grande de damasco carmezim com sobreceo e rodapé com tres cortinas com franjas de retros que foi avaloada em trinta e tres mil reis”5.

1659 - “Huma cama de damasco cramezim com alamares e franja de ouro e suas quedas no doçel de tela encarnada repassada com cobertor pequeno e rodape da mesma tela que tudo foi visto e avaliado em sem mil reis”6

“Hum paramento da mesma cama de damasco cramezim com sobreçeo e quedas do mesmo cobertor e rodapé guarnecido tudo de franja e alamares de ouro que foi visto e avaliado em trinta mil reis”7.

1704 - “Um paramento de Cama de Damasco carmezim sobre ceo e trez cortinas com cobretor do mesmo forrado tudo de tafetâ a mesma cor com franjas de ouro em bom uzo avaliada em trezentos mil reiz”8.

1758 - “Huma armação de leito mião de damasco amarelo de quatro cortinas sobreceo rodapé e cobertor, e este se acha com bastante uzo vista e avaliada em trinta e outo mil e quatrocentos reis”9.

1780 - “Huma armação de cama de campanha de nobreza cramezim guarnecida de fita crespa da mesma cor uzada e avaliada em nove mil e seiscentos”10.

Maria João Ferreira (2014)

1 Cf. Raffaela SARTI, Casa e Família. Habitar, Comer e Vestir na Europa Moderna. Lisboa, Ed. Estampa, 2001, p. 205.

2 Cf. Geoffrey BEARD, Upholsterers & Interior Furnishing in England 1530-1840. New Haven e Londres, Yale University Press, 1997, p. 26.

3 Cf. Maria João Pacheco FERREIRA, “Conforto e Ostentação: Dormir no Paço de Vila Viçosa ao tempo de D. Teodósio I”, in Jessica HALLETT e Nuno SENOS, ed., DE TODAS AS PARTES DO MUNDO, O património do 5º Duque de Bragança, D. Teodósio I, vol. II Estudos, Lisboa: Tinta da China, (no prelo).

4 ARQUIVO HISTÓRICO DA CASA DE BRAGANÇA, BDMII Res Ms18, Inventário dos Bens do 5º Duque de Bragança, D. Teodósio I (1564-1567); [cópia de Lisboa, 15 de Dezembro e 1665; 657 fls]; transcrição de Joana Torres, revisão de Hugo Crespo. fls. 297-297v, entrada 2826.

5 ARQUIVO NACIONAL/ TORRE DO TOMBO, Orfanológicos, Letra F, Maço 120(B), Nº 1, Inventário dos bens de Francisco Rodrigues Salgado, 1642, fl. 17v.

6 ARQUIVO NACIONAL/ TORRE DO TOMBO, Orfanológicos, Lera J, Maço 347, Nº 9, Inventário dos bens que ficaram por falecimento do Conde de Castelo Melhor, João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa, fez a viúva sua mulher, Condessa de Castelo Melhor, D. Mariana de Lencastre Vasconcelos e Câmara, 1659, fl. 34.

7 Idem, fl. 56.

8 ARQUIVO HISTÓRICO DO MINISTÉRIO DAS FINANÇAS, Cartório das Casas de Sortelha e Abrantes, Livros nº 65 publ. por Maria Teresa de Andrade e Sousa, Inventário dos bens do Conde de Vila Nova D. Luís de Lencastre 1704, Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1956 p. 41.

9 ARQUIVO NACIONAL/ TORRE DO TOMBO, Orfanológicos, Letra M, Maço 173, Nº 4, Autos de inventário dos bens que ficaram do Ilustríssimo e Excelentíssimo Marquês de Penalva e se continua com a Ilustríssima e Excelentíssima Senhora Marquesa do mesmo título, 1758 – 1759, fl. 63.

10 ARQUIVO NACIONAL/ TORRE DO TOMBO, Orfanológicos, Letra C, Maço 27, Nº 4, Inventário dos bens que ficaram por óbito da Excelentíssima Condessa de Redondo D. Maria Antónia de Menezes e se continua com o viúvo, seu marido o Excelentíssimo Conde Fernando de Sousa, 1780, fls. 56v-57.





 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009