A Casa Senhorial

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Sala

SALA, salla, ( Do baixo latim sala) no Vocabulário de Rafael Bluteau, o autor descreve a salla como; “casa anterior e espaçosa (…) porque na sala se costuma descansar e esperar ate que venha pessoa com que se hade fallar e também há salas em Palácios de Príncipes, em que descanção e dormem os guardas, como no Palácio dos Reys de Portugal a sala dos Tudescos (…) ou porque em dias de banquetes e festas algumas vezes se salta e dança”i.

Recuando à Idade Média o termo “salla” tinha sobretudo o sentido de local ou espaço de reunião podendo assumirem estas reuniões diversas facetas, festas, encontros formais, banquetes etc. Neste sentido Fernão Lopes escreve na Crónica do rei D. Fermando ”e este convite foi nos paaços dél-rrey do castello, honde a todos foi feita salla mui honrradamente “ii O mesmo sentido encontra-se noutro texto de Fernão Lopes que refere “Emtonçe comerão com o Duque a çea, uma sala que [D. João I] mandou fazer a elles e aos senhores que com elle estavão”iii

Marcado na sua origem por uma certa polifuncionalidade, este grande espaço cumpria três funções de significado distinto; um primeiro de entrada e espera, outro como lugar onde estão escudeiros ou guardas e por fim, pelas suas vastas dimensões, funções de grande “salla” em momentos de festas e recepções. O Regimento dos Officiais da Caza do Duque D. Teodósio I, duque de Bragança entre 1532-1563, é particularmente elucidativo do carácter polifuncional deste espaço sendo referido no texto que cada noite quatro dos doze guardas, a cargo de António Mouro, tinham a obrigação de dormir na sala e um de acender a velaiv

Pelas suas funções sociais a salla era o espaço maior de uma casa situando-se, no programa interior do paço, numa localização dianteira em relação aos outros compartimentos.

No seu livro O Leal Conselheiro D. Duarte I fornece uma significativa descrição de sala; “Prymeira, salla, em que entram todollos do seu senhorio que omyzyados nom som, e assy os estrangeiros que a ella querem vir”v. Da sua relação com a estrutura o Regimento da Casa de D. Afonso V, o texto faz igualmente menção à sequência da salla, antecâmara, câmara de dormir e guarda-roupavi.

Tinha ( António Mouro ) a seu cargo os homens da Guarda que eram doze, mandava cada noite dormir quatro na sala, e hum delles tinha cuidado de acender a vela

Ao longo do século XVIII, o termo sala vai perdendo o seu sentido tradicional de grande espaço nuclear e fundamental. Acompanhando uma maior racionalização da casa senhorial, as antigas funções polifuncionais da sala desdobram-se em vários espaços autonomizados, dando origem à “sala vaga” ou sala de espera, à sala de visitas ou ainda à casa de jantar.


Referências documentais

1377 (c.)” …e enviou consigo toda a sua tapeçaria, que tinha boa, e fiz armar a salla, e as Cameras, e a fazer Copeiras com muitos degraos, e correger meza em hum estrado de tres degraos onde elle avia de comer, e assy mezas para toda a salla”; Jornada do Marquês de Valença a Itália.vii

1438 – “Prymeira, salla, em que entram todollos do seu senhorio que omyzyados nom som, e assy os estrangeiros que a ella querem vir”. Descrição de um paço realizada por D. Duarte I, viii

1537 “Primeiramente aquella salla noua de que primeiro falei q he huã caza mui grande e muito espasosa; estaua toda armada de m.to rica Tepasaria dos Infantes noua de istorias antigas muito pera notar e no topo della sobre hum alto estrado de muitos degraos, bem cuberto ate o chaõ de mui excellentes alcatifas de xio, estaua armado com cordois grossos de seda de cores; hum grande dosel de brocado de tres altos nouo com sanefas de ueludo rocho encostando a elle huã cadeira de espaldas do mesmo brocado franiada de ouro e prata e crauada com medalhas antigas douradas e no asento della huã almofada do mesmo borcado com suas borlas e no estrado outras oito do teor desta postas de duas em duas e outras seis de velludo carmesi, postas huas sobre outras no cabo de hum dos degraos do estrado”. …”. Descrição do Palácio Ducal de Viola Viçosaix.

1532-1563 – “Tinha (António Mouro ) a seu cargo os homens da Guarda que eram doze, mandava cada noite dormir quatro na sala, e hum delles tinha cuidado de acender a vela” Regimento dos Officiais da Caza do Duque D. Teodósio I. duque de Bragançax

XVI (finais do séc.) - Varanda- Salla -Antecâmara – Câmara -Guarda-roupa - Casa do guarda-roupa – Tribuna- Casas de famliares – Dedespacho -Sciptorium Banho” Legenda da Planta do Palácio dos Duques de Bragança em Lisboa.xi

Hélder Carita (2014)


i BLUTEAU, Rafael, Vocabulário Portuguez e Latino …, Lisboa, Officina Pascoal da Silva, 1720, vol. VII, p.440

ii LOPES, Fernão. Crónica de D. Fernando , I.N.I.C, 1975, p.456

iii LOPES, Fernão. Crónica de D. João I , Porto, Livraria Civilização, 1983, vol.I, p.423

iv SOUSA, António Caetano de, Provas da História Geneológica da Casa Real, Lisboa, Officina Sylviana, Vol. IV, 1745, p.191

v D. DUARTE - Leal Conselheiro, (ed. crítica e anotada por J. M. Piel), Lisboa, Lvrª Bertrand, 1942, p.303, (sublinhado nosso).

vi ORDENAÇÕES Afonsinas , Livº I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Título LVIII, 1984, pp. 337-340.

vii SCARLATTI, Lita – Os Homens de Alfarrobeira, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980. ( Carta de Pedro de Sousa, senhor do Prado … sobre a Jornada do Marquez de Valença a Itália).

viii D. DUARTE - Leal Conselheiro, (ed. crítica e anotada por J. M. Piel), Lisboa, Lvrª Bertrand, 1942, p.303, (sublinhado nosso).

ix Biblioteca Nacional de Lisboa. Memórias da Caza de Bragança, Cód. 1544 (páginas inumeradas)

Festas e apercebimentos que fes em Villa / Vicoza o Duque de Bargança Dom Theo- / dosio. E os casamentos do Infante Dom / / Duarte e da srª Infante Dona Izabel/ sua irmam. No mes de Abril do / anno de 1537.

x SOUSA, António Caetano de, Provas da História Geneológica da Casa Real, Opus iti. p.191

xi Biblioteca Nacional – Iconografia D. 624.


 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009