A Casa Senhorial

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Câmara

CÂMARA - (Do latim camera). Na Idade Média o termo câmara tinha um significado mais amplo indiciando a um compartimento importante da casa com funções múltiplas. O sentido alargado do termo explica que os primeiros documentos sobre as reuniões do Conselho da Cidade de Lisboa refiram o lugar como “câmara do Paaço do Concelhoi, o que mais tarde virá a significar a própria instituição. Com o mesmo sentido, D. João I, em 1398, doa a Martim Afonso de Melo, seu guarda-mor “a torre da cerca velha para fazer câmaras ou outros edifíciosii.

Nos finais da Idade Média a câmara começa a ganhar uma função mais específica como lugar de dormir numa complexificação dos interiores das elites, onde passa a articular-se com a antecâmara que a precede e a guarda roupa ( transcâmara) que lhe seguia. Encontramos este esquema no Regimento da Casa de D. Afonso V, onde o texto faz menção, no paço real, à sequência da salla, antecâmara, câmara de dormir e guarda-roupaiii. Embora como espaço de dormir a câmara mantém funções de receber, embora de carácter mais privado, como descreve D. Duarte I no seu livro O Leal Conselheiro onde o autor coloca a câmara na sequência da sala e da antecâmara descrevendo-a: “, câmara de dormyr, que os mayores e mais chegados de casa devem aver entrada.”iv. Ao longo dos séculos XVI e XVII a câmara mantém funções de dormir associadas com estar e receber em privado.

No inícios do século XVIII, Bluteau no seu Vovabulário define câmara como “a casa em que se dorme”. v. Como variante, Bluteau também define a câmara como: “as casas e o tribunal em que o Presidente, vereadores & outros, se juntão para tratar dos negócios concernentes ao bem público de hua cidade”.

A partir do século XIX o termo câmara entra em declínio sendo substituída progressivamente pela designação de quarto de dormir, ou simplesmente quarto.


Referências documentais

1290 – “ … e cõ seu alpender e cõ sãs duas câmaras e com a casa da cozinha e cõ as cortes”. Documento de partilhas de paço de D. Maria Rodrigues vi.

1313 - “huu sotoom do canto darregueyra em q ora mora Gonçalo Eanes e o sobrado de cima e a câmara de dentro do beco”. (Carta de doação e emprazamento por Soeiro Paisvii.

1377 (c.) - “…e elIes o levaram pera huma Camara, e trouveromlhes logo muy prestesmente vinho, e fruita, e bebeo o Conde com elIes, e todolos outros CavalIeiros, e Gentishomens, e esto assi acabado partio-se” Jornada do Marquês de Valença a Itália .viii

1398 - “ torre da cerca velha que está dentro das suas casas para nela fazer camâras ou outros edifícios” Doação de D. João I ao seu Guarda-Mor, Martim Afonso de Melo, de uma torre da cerca velha ix.

1438 - "Terceira, câmara de dormyr, que os mayores e mais chegados de casa devem aver entrada. virtuosos cuidados." Descrição de um paço por D. Duarte I, no livro Leal Conselheirox.

XVI (finais do séc.) - “Varanda- Salla -Antecâmara – Câmara -Guarda-roupa - Casa do guarda-roupa – Tribuna- Casas de famliares – Dedespacho -Sciptorium –Banho”. Legenda da Planta do Palácio dos Duques de Bragança, em Lisboa.xi

XVII (finais) “…a Camara toda alcatifada com duas alcatifas e armada de panos de Raz, cama de tella riqua, e franjões de oiro e assim as sanefas das portas e ginellas e tamboretes e cortinas de damasco e dois espelhos e dois bufetes doirados”. Descrição do interior do Palácio dos Condes de Povolida, em Lisboaxii.

1750 c. “nesta se seguia a camara em que dormio o embaixador em huma cama rica com cadeiras de braços e sanefas irmans”. Descrição do interior do Palácio da Mitra, em Lisboa xiii

Hélder Carita (2014)

i ARQUIVO da CML, Livro II de Místicos, fl,13,

ii BEIRANTE, Maria Ângela Rocha, Évora na Idade Média, Lisboa, FCG, 1995, p.48

iii ORDENAÇÕES Afonsinas , Livº I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Título LVIII, 1984, pp. 337-340.

iv D. DUARTE - Leal Conselheiro, (ed. crítica e anotada por J. M. Piel), Lisboa, Lvrª Bertrand, 1942, p.303, (sublinhado nosso).

v BLUTEAU, Rafael, Vocabulário Portuguez e Latino…, Coimbra, Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712, vol.II, p.68

vi FREIRE, Anselmo Brancaamp - “A Honra de Resende”, in Archivo Histórico Português., vol. IV, Lisboa, 1906, pp.39-40.

vii DOCUMENTOS da Biblioteca Nacional Relativos a Lisboa ( séc. XIII a XV ). Lisboa, 1º série, Ed. BNP., 1935. , vol, p.56, (Doc. II, ano de 1313).

viii SCARLATTI, Lita – Os Homens de Alfarrobeira, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980. ( Carta de Pedro de Sousa, senhor do Prado … sobre a Jornada do Marquez de Valença a Itália).

ix BEIRANTE, Maria Ângela – Évora na Idade Média, Lisboa, FCG-JNICT, 1995., pp.48

x D. DUARTE - Leal Conselheiro, (ed. crítica e anotada por J. M. Piel), Lisboa, Lvrª Bertrand, 1942, p.303, (sublinhado nosso).

xi Biblioteca Nacional de Portugal – Iconografia - D. 624.

xii IAN/TT , Arquivo da Casa dos Condes de Povolide, Memórias do 1º conde de Povolide, vol. I nª 13, fls. 112-112v

xiii CÂMARA, Maria Alexandra Gago da, “Cerimonial por Ocasião da presença do Conde de Bachi, na Corte de D. José I”, Revista de Artes Decorativas, Porto, nº3, p.347



 

PTCD/EAT-HAT/11229/2009