A Casa Senhorial

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Casa Bragança Pereira /Chandor

Casa Bragança Pereira /Chandor
XVIII,XIX - XX
Goa
Arquitectura

O conjunto arquitectónico localiza-se no núcleo fundamental da povoação de Chandor, o largo da Igreja. Este largo é marcado ao centro por um monumental cruzeiro e circundado pelos edifícios mais emblemáticos da povoação, a sul o Palácio de Chandor e na face este a Igreja Nossa Senhora de Belém.

A Casa Bragança Pereira corresponde à ala nascente do Palácio Chandor, estando o conjunto implantado no interior de um lote murado envolvido por um jardim de vegetação pouco densa. A fachada principal é orientada a Norte e dispõe-se paralela ao largo onde diferentes portões permitem distintos acessos ao interior dos dois pisos da casa.


      

A morfologia do edificado apresenta-se como um prisma irregular ortogonal, definido pela fachada principal longitudinal tripartida e simétrica e um desenvolvimento assimétrico na volumetria tardoz do conjunto.

O Palácio Chandor resulta da aglutinação de duas casas que têm como eixo estrutural um pátio central e os espaços de circulação e entrada. A Casa Bragança Pereira corresponde à ala nascente do conjunto arquitectónico.

Comum às duas casas, a entrada define-se no tramo central da composição espacial tripartida pelo avanço de um corpo na extensa fachada principal. Nele abre-se um pórtico com arco de volta perfeita no piso térreo e uma varanda com arco abatido no piso nobre. Como remate superior o corpo apresenta cornija saliente e duplo beirado, destacando-se em cima e ao centro, na proporção do tramo que marca a métrica de toda a fachada, um frontão triangular ladeado por dois fogaréus. Em abaixo um alpendre percorre todo o edifício.

No alinhamento ortogonal do volume central desenvolve-se um patamar limitado por dois baixos muretes em laterite com balaustres lisos que contornam o termo irregular da propriedade. Nos muretes abrem-se simetricamente na frente do largo dois portões secundários enfatizados por dois plintos de secção quadrangular com fogaréus ao cimo.

A volumetria do corpo da Casa Bragança Pereira desenvolve-se sobre uma planta de forma em “L” para nascente. A composição volumétrica é organizada ortogonalmente pelo prisma rectangular da fachada e outro corpo de base rectangular que assegura a tardoz a ligação entre a área de recepção e a zona de serviços nas traseiras. Adoçado a poente, a três quartos do comprimento deste corpo, um terceiro volume recorta-se sob a forma de prisma de planta quadrangular.

Os jardins que circundam a casa são pouco individualizados, podendo identificar-se um jardim de aparato que faz o enquadramento à fachada principal e uma área exterior ajardinada a tardoz que sob a forma de pátio articula intimamente interior e exterior do edifício.

 


A fachada principal tripartida do Palácio Chandor é demarcada no tramo central do edifício pelo avanço (palmo e meio) de um corpo com pilastras adossadas aos cantos e ornamentado em cima por um frontão triangular ladeado por fogaréus. Neste corpo destacam-se no piso térreo um pórtico com arco de volta perfeita e, no piso nobre uma varanda com guarda em madeira.

Correspondendo à ala nascente do conjunto, a fachada da Casa Bragança Pereira desenvolve-se sobre um conjunto de grandes pilastras toscanas que alternam ritmicamente com as doze janelas de sacada com arcos trilobados no piso nobre e, no piso térreo com vãos de arcos tribulados.

Para além da extensão do volume edificado, a horizontalidade da fachada é reforçada pela invisibilidade do piso térreo, uma vez que este é coberto pela vegetação do jardim de aparato, pelo duplo beirado e telheiro que envolvem todo o edificado, e pelo baixo murete com balaustres lisos que contorna o limite da propriedade.



     




Orientada a poente, a fachada lateral da Casa Bragança Pereira desenvolve-se com organização assimétrica na zona de serviços situada nas traseiras. No conjunto, estes corpos definem entre si um pátio semi-aberto.

O corpo nobre na sua fachada virada a nascente apresenta três janelas de arcos trilobados com varanda comum no piso nobre e sem janelas no piso térreo. Esta fachada é emoldurada nos seus extremos com largas pilastras, os seus capitéis unem-se com a cornija saliente. Este corpo é rematado por telheiro que corre toda a fachada principal, apresentando um duplo beirado saliente.

A fachada tardoz do corpo nobre apresenta uma varanda alpendrada com grandes arcos de volta perfeita.


   


As janelas de sacada decoradas com arcos trilobados manifestam uma liberdade estética própria da segunda metade de XIX.

As suas molduras curvas e salientes terminam sob um apontamento curvo junto da guarda da varanda. Em madeira esta guarda apresenta padrões geométricos e florais sobrepostos feitos em talha. Esta opção pela madeira, em oposição ao ferro forjado, manifesta uma clara filiação com as tradições de arquitectura e construção autóctones.

Salientes palmo e meio para o exterior da casa, os suportes das varandas das janelas de sacada apresentam-se sobre três pequenas mísulas que vemos divulgadas na arquitectura portuguesa a partir do barroco.  

     



Jardim

Ao longo da fachada principal e em articulação com o espaço do largo, a Casa Bragança Pereira apresenta o jardim de aparato, ou da entrada, ornamentado com mesa e bancos decorados com embrechados de grande qualidade estética.

Em articulação com o jardim de aparato estende-se um conjunto de jardins pouco individualizados que envolve toda a casa.

   


CARITA, Helder, Palácios de Goa, Lisboa, Ed. Quetzal, 1996, pp.136 – 159

HPIP - http://www.hpip.org/def/pt/Homepage/Obra?a=1452

1878 – Emitidas em Lisboa pelo Concelho de Nobreza, cartas de títulos de moço fidalgo com exercício na Casa Real e brasão de armas são entregues a Francisco Xavier de Bragança.

1882 – Os mesmos títulos são recebidos por António Elzário Sant’ Anna Pereira.

Século XIX – Progressiva importância e autonomia da Família Bragança Pereira e da Menezes Bragança faz com que cada casa cresça assimetricamente/ de forma independente.  

Helder Carita, Desenho da fachada principal do Palácio Chandor



Programa Interior
Piso 0

O programa de interiores do piso 0 do conjunto arquitectónico organiza-se segundo entradas para três espaços distintos.

Duas laterais que correspondem aos dois portões secundários localizados simetricamente no murete exterior e que dão acesso às zonas de serviços agrários localizados do piso térreo. E, outra que, correspondendo à porta principal sequente ao terreiro no centro da fachada, organiza um conjunto de espaços que se apresenta como eixo estrutural e dá acesso ao piso nobre.

Este conjunto de espaços, que precede a porta principal, é constituído por uma sala de entrada, uma galeria alpendrada que cobre quase a totalidade área central e um pátio a céu aberto a tardoz. A zona central da galeria apresenta um conjunto de escadarias formadas por um lance que se desdobra em dois. Para nascente, esta área fornece acesso à casa Bragança Pereira.

Piso 1

O programa interior da Casa Bragança Pereira desenvolve-se a nascente de um eixo estruturante central constituído pelos espaços de entrada e circulação ao piso nobre do palácio.

A planta em forma de “L” da casa distingue funcionalmente dois espaços, as zonas de recepção ao longo do volume da fachada principal e a zona de circulação interior e de serviços ao longo da estrutura rectangular perpendicular ao corpo da fachada principal.

Os primeiros espaços, situados no corpo da fachada principal, organizam sequencialmente a sala de espera, o salão e o quarto de aparato.

O segundo, a nascente do eixo de circulação central e perpendicular à zona de recepção, organiza linearmente um conjunto de quartos intercomunicantes e o estreito vasary que, para além de assegurar a comunicação a todo edifício, permite uma estrita e intima ligação com o pátio exterior. Na contiguidade deste corpo uma pequena sala liga a tardoz as áreas de serviços e abre o acesso a uma capela existente num corpo adjacente a nascente. 

 

Alpendre

Suportado por grandes pilares, o alpendre cria uma vasta zona coberta, mas com livre circulação e apropriada a um clima tropical. Sob a sua cobertura apresentam-se umas escadarias divididas em dois lances opostos que evidenciam claras afinidades tipológicas com as do palácio dos Santa da Silva em Margão ou da Casa dos Mirandas na mesma localidade.

   

Sala de visitas

Localizada junto da fachada principal, a sala de visitas organiza-se como núcleo de distribuição das salas de aparato e o corpo de quartos.

Na sua forma rectangular abrem-se três janelas de sacadas a sul, duas portas para a sala de jantar (antigo vasary) a nascente e outras duas para as escadarias e quarto situadas a norte.

       

Salão

Ocupando toda a fachada poente, a “sala” constitui, pelas suas proporções e localização privilegiada, o espaço nobre da casa. Nela abrem-se um conjunto de cinco janelas de sacada sobre o jardim de aparato, quatro portas para a galeria alpendrada a norte e ainda duas portas para o quarto de aparato. Ao longo das paredes distribuem-se conjuntos de canapés de desenho romântico. O salão é ainda iluminado por uma sequência de grandes lustres de cristal.

O tecto de masseira em bisel apresenta uma asna ao centro da sala e quatro asnas de travamento nos cantos.

           

Quarto de Aparato

Ocupando o extremo a nascente do corpo principal, o quarto de aparato comunica directamente com o salão de baile através de duas portas abertas no alinhamento das janelas sacada da face nascente. Existem também no quarto duas janelas de sacada sobre o jardim de aparato a norte e uma porta virada para a galeria a sul.

A interdependência entre quarto de aparato e salão é explicada pela função de representação que este exerce aquando se celebram cerimoniais especiais, como nascimento de um novo membro da família ou na velação dos mortos nas celebrações fúnebres.  

   
Varanda

A estreita e longa varanda da residência desenvolve-se perpendicular às zonas de recepção, e através das suas fenestrações funciona  como espaço de articulação entre quartos estas salas. A estreita articulação entre pátio nascente e os arcos de alvenaria a sul na varanda servem para arejar os interiores do clima bastante húmido sentido em Goa.

   

Sala de jantar

A sala de jantar desenvolve-se num longo compartimento no centro da casa que, pelas suas dimensões e localização articula através das fenestrações diferentes zonas da casa. A sul as janelas de sacada abrem-se sobre o jardim de aparato, a poente ligam sala de visitas e quartos, a nascente a sala comunica com o salão e a norte através de um pequeno estreitamento rectangular em madeira abre-se a casa de jantar.

A sua função enquanto sala de refeições – vasary- explica as proporções estreitas e compridas uma vez que é característica da tradição hindu comer em linha, ou seja, colocado lado a lado.

A sala apresenta pavimentos em embrechados de grande qualidade estética, assim como restos de decoração de pinturas murais que nos ajudam a visualizar a concepção espacial dos interiores do século XVIII.

   

Casa de jantar

A casa de jantar desenvolve-se na sequência da sala de jantar como um tronco comum que seria em tempos o antigo vasary. A articulação com esta sala faz-se através de uma abertura rectangular com moldura em madeira que abrange quase na totalidade a secção transversal da largura da casa.

O seu programa distributivo desenvolve-se sobre fenestrações que ligam os restantes compartimentos da casa. A norte comunica com uma pequena sala que faz a transição com a área de serviços, e a nascente grandes janelas de forma rectangular abrem-se para o jardim interior.

   

Capela

A capela apresenta-se num corpo a nascente do antigo vasary com acesso a partir de uma galeria que se prolonga perpendicular ao espaço da casa de jantar. A sua organização apresenta os espaços da nave, sacristia e pequeno compartimento de arrumos no interior.

De planta rectangular com pouca profundidade, este espaço apresenta ao fundo um nicho central enquadrado por um retábulo com arco de volta perfeita em madeira entalhada que tem embasamento em alvenaria revestido de mosaico hidráulico.

Ao centro do nicho apresenta-se uma mesa de altar em forma de paralelepípedo em madeira sobre a qual estão organizadas um cruxifico ao centro e vários castiçais.  

     

 
  
Azulejaria
Estuques
Pintura Decorativa
Piso 1, Divisão 1

A sala de visitas apresenta um friso de gosto romântico com rosas e folhagens numa repetição linear do mesmo motivo floral sobre as paredes pintadas de azul acinzentado. 

   

Piso 1, Divisão 1

Correndo a zona inferior das paredes da sala desenvolve-se uma pintura imitando lambril de madeira como um padrão de azulejos.

   

Piso 1, Divisão 5

A casa de jantar apresenta um friso superior rosa pálido sobre o qual aparecem em branco delicados arabescos de pintura em stencil.

     

Piso 1, Divisão 4

Sobre as portas da sala de jantar e nos rodapés existentes entre elas estendem-se pinturas com delicados motivos florais sobre o desenho de folhagens.

      
Decoração Diversa

Piso 1, Divisão 5

A sala de jantar apresenta pavimento em embrechado de grande qualidade estética com um tom cinza sobre o qual se estende padrão com pequenos apontamentos florais verde seco. O limite da sala é marcado no pavimento por uma moldura, que enquadrada por duas linhas apresenta no interior uma sequência de cornucópias floridas. Os cantos da sala são enfatizados pela existência de um quadrado se desdobra para o interior da moldura e é ornamentado com apontamento floral.

     

Piso 1, Divisão 5

O pavimento da sala é coberto por mosaicosde padrão geometrico. 

   

Piso 1, Divisão 5

O pavimento da capela é coberto por mosaicos que dividem o espaço em três molduras que se desenvolvem a partir do centro com diferentes padrões geométricos.

   
Equipamento Móvel

Piso 1, Divisão 1

Na sala de visitas sobressaem conjuntos de móveis de assento de várias épocas, deles são exemplo as cadeiras e canapé que remontam ao Século XIX, ou a cadeira de secretária que no centro da tabela de encosto sobressai um símbolo chinês, ruyi, denota a profunda influência chinesa do século XVIII.

     

Piso 1, Divisão 5

Colocadas no centro da parede do salão de baile, as duas poltronas de decoração rococó polarizam as atenções de um espaço onde ao longo das paredes sucedem-se conjuntos de canapés de desenho romântico. Ao conjunto de mobiliário existente sobressai também um piano colocado numa diagonal ao canto da sala.

     

Piso 1, Divisão 5

A cama de dossel do século XIX destaca-se como elemento de mobiliário principal no quarto de aparato.

     


Equipamento Diverso


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PTCD/EAT-HAT/11229/2009